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Gordura no tratamento da artrose: promessas e o que você realmente precisa saber

A medicina regenerativa utiliza a gordura do próprio paciente para tratar a artrose. O tecido adiposo retirado do abdome,  virilha, ou outras regiões do corpo, passa por processos de filtragem e emulsificação. Desse processo, obtêm se diferentes frações: gordura microfragmentada (MFAT), nanofat, fração vascular estromal (SVF) e células tronco derivadas do tecido adiposo (ADMSC). Este artigo explica a ciência por trás desses métodos, os benefícios reais e as limitações.

O que é a Artrose e por que ela dói tanto

A artrose, também chamada de osteoartrite, é a destruição progressiva da articulação. A cartilagem faz parte da articulação e é o tecido liso que cobre as extremidades dos ossos. Quando esse tecido se desgasta, o osso fica exposto. O atrito entre os ossos causa dor.

A cartilagem saudável suporta carga, absorve impactos e permite movimentos sem dor. Com o tempo, lesões, sobrepeso ou fatores genéticos causam o desgaste desse tecido. A cartilagem tem baixa capacidade de regeneração espontânea.

A artrose envolve um processo inflamatório de baixa intensidade. Essa inflamação libera substâncias que aumentam a dor e aceleram a destruição da cartilagem. O tratamento com gordura atua exatamente nesse processo inflamatório.

A gordura como aliada

O tecido adiposo contém células mesenquimais, fatores de crescimento, exossomos e moléculas com ação anti-inflamatória. Em vez de descartar a gordura aspirada na lipoescultura, os médicos a processam e a injetam nas articulações doentes.

Do abdome para a articulação: a lógica por trás do uso da gordura

A gordura do próprio paciente não causa rejeição. Ela é fácil de obter em quantidade suficiente. Após o processamento, ela se torna um material rico em elementos regenerativos, moduladores e anti-inflamatórios. Diferentes frações de gordura exigem métodos de preparo específicos. Existem 4 produtos derivados de gordura: MFAT, nanofat, SVF e ADMSC. Vamos descrevê-los adiante.

MFAT (Gordura Microfragmentada): O que é e como se obtém

MFAT significa gordura microfragmentada, também chamada de microfat. É a gordura comum submetida a um processo mecânico de fragmentação. Esse processo não utiliza enzimas ou produtos químicos. O objetivo é aumentar a superfície de contato com o tecido doente e liberar as células benéficas.

Microfat x macrofat: diferença de tamanho

A macrofat, usada em cirurgias plásticas para preenchimento, tem fragmentos de 2 a 3 milímetros. A microfat tem partículas entre 0,5 e 1 milímetro. Fragmentos menores se integram mais facilmente ao tecido receptor e liberam mais fatores de crescimento.

O passo a passo da extração por lipoaspiração:

O procedimento começa com uma mini lipoaspiração. O médico aplica anestesia local. Uma cânula fina é inserida para aspirar de 50 a 100 ml de gordura, geralmente do abdome ou da virilha. Esse material é colocado em um sistema fechado de filtros. Ao passar a gordura de uma seringa para outra através de telas metálicas, ocorre a fragmentação. O resultado é a MFAT, pronta para ser injetada na articulação.

Nanofat: Tamanho pequeno e potencial diferente

O nanofat possui partículas extremamente pequenas, geralmente menores que 0,1 milímetro. Nesse processo, grande parte da estrutura original do tecido adiposo se perde, formando uma suspensão rica em exossomos, células estromais e moléculas bioativas. Diferente do macrofat, o nanofat não é utilizado para dar volume aos tecidos. Seu principal interesse está no potencial de modular inflamação, cicatrização e comunicação entre as células.

Filtros e emulsificação: Para obter o nanofat, a gordura microfragmentada passa por um processo chamado emulsificação. Nele, a gordura é transferida repetidas vezes entre duas seringas conectadas por adaptadores estreitos, reduzindo progressivamente o tamanho das partículas. Em seguida, o material pode passar por filtros para remover fragmentos maiores, formando um líquido mais fluido, esbranquiçado e rico em componentes biológicos. Esse material pode então ser injetado com agulhas mais finas em diferentes tecidos e articulações.

SVF (fração vascular estromal): Conjunto de células do tecido adiposo

SVF significa fração vascular estromal. Ela não corresponde exatamente à gordura em si, mas ao conjunto de células presentes no tecido adiposo além dos adipócitos (células de gordura). Essa fração contém células-tronco mesenquimais, células endoteliais, macrófagos, pericitos e outras células capazes de participar de processos de inflamação, cicatrização e reparo tecidual.

Por que o SVF é usado na medicina regenerativa?

Para obter a SVF, o tecido adiposo precisa passar por um processamento capaz de separar as células presentes entre os adipócitos. Isso pode ser feito de duas formas principais: por digestão enzimática ou por processamento mecânico. 

Na digestão enzimática, a gordura aspirada é lavada e tratada com colagenase, uma enzima que quebra as fibras de colágeno que mantêm as células unidas no tecido adiposo. Já no processamento mecânico, a separação ocorre através de fragmentação, emulsificação, centrifugação e filtração da gordura, sem uso de enzimas. 

Após o processamento, obtém-se uma fração rica em células e moléculas bioativas, chamada SVF. A digestão enzimática costuma gerar maior liberação celular, mas exige laboratório, processamento estéril, equipamentos específicos e maior custo. Por isso, muitas técnicas mecânicas têm despertado interesse por serem mais simples e práticas na rotina clínica.

ADMSC (Células tronco derivadas do tecido adiposo)

ADMSC são as células tronco mesenquimais presentes no tecido adiposo. Elas secretam fatores de crescimento que reduzem a inflamação e atraem outras células de reparo.

O que essas células conseguem e o que não conseguem fazer?

As ADMSC, MFAT, nanofat ou SVF não regeneram uma cartilagem completamente destruída. Elas não criam um novo tecido liso onde existe apenas osso exposto. O que elas fazem é reduzir a inflamação, diminuir a dor e melhorar a função articular. Alguns estudos mostram pequena formação de fibrocartilagem, mas não de cartilagem hialina original. Portanto, não existe cura total, mas podemos promover alívio da dor, recuperar função e devolver qualidade de vida ao paciente.

Comparação direta: Gordura vs. Ácido Hialurônico, PRP, Corticoide e BMA

Ácido hialurônico: lubrificante temporário

O ácido hialurônico melhora a viscosidade do líquido sinovial, o que reduz o atrito e alivia a dor por alguns meses. Ele é uma opção bem estabelecida para artrose leve a moderada. O ácido hialurônico tem um bom perfil de segurança e pode ser repetido conforme a necessidade do paciente.

Existem estudos comparando gordura microfragmentada (MFAT) com ácido hialurônico em pacientes com artrose do joelho. De forma geral, os resultados mostram melhora semelhante de dor e função entre os dois tratamentos, com alguns estudos sugerindo benefício mais duradouro da MFAT em determinados pacientes. No entanto, ainda faltam estudos maiores e mais padronizados para definir superioridade clara entre os métodos.

PRP: plasma rico em plaquetas

O PRP é preparado a partir do sangue do paciente. As plaquetas liberam fatores de crescimento que auxiliam no reparo tecidual. O PRP é uma alternativa para artrose leve a moderada, com resultados variáveis conforme o método de preparo. É um tratamento autólogo, sem risco de transmissão de doenças.

Também já existem estudos comparando MFAT com PRP. Os resultados atuais mostram melhora clínica semelhante entre os tratamentos em muitos pacientes com artrose. Alguns trabalhos sugerem benefício mais prolongado da gordura microfragmentada em casos selecionados, enquanto outros não demonstram diferença significativa. Até o momento, não existe evidência consistente mostrando superioridade clara de um método sobre o outro.

Corticoide: efeito rápido em crises

O corticoide (como a triancinolona) é utilizado principalmente em crises agudas de dor e inflamação. Sua ação é rápida e eficaz para controle sintomático de curto prazo. O uso deve ser criterioso e sob orientação médica, respeitando intervalos seguros entre as aplicações.

Existem poucos estudos comparando diretamente derivados de gordura com infiltrações de corticoide. Os dados disponíveis sugerem que o corticoide costuma proporcionar alívio mais rápido da dor, enquanto a gordura microfragmentada pode apresentar efeito mais prolongado em médio prazo. Ainda assim, a evidência comparativa permanece limitada.

BMA (aspirado de medula óssea)

O BMA é obtido principalmente da crista ilíaca (osso do quadril) e contém células tronco mesenquimais além de fatores de crescimento, exossomos, moléculas bioativas e outros tipos celulares. É uma opção válida na medicina regenerativa. A medula óssea tem uma concentração de células tronco diferente da do tecido adiposo. A coleta de gordura fornece maior número de células por volume. Estudos mostram que a gordura microfragmentada tem eficácia clínica equivalente à do BMA.

Gordura microfragmentada (MFAT), nanofat e SVF:

A gordura do próprio paciente, após processamento, também é uma opção segura e eficaz. Ela contém células tronco e fatores anti-inflamatórios. Os estudos indicam que a gordura microfragmentada tem resultados clínicos tão bons quanto os do ácido hialurônico, do PRP, do corticoide (para alívio da dor em médio prazo) e do BMA. A escolha entre esses tratamentos deve levar em conta o perfil do paciente, o estágio da artrose, o custo e a disponibilidade do método.

Entre os derivados de gordura, a comparação clínica mais estudada é entre MFAT e SVF. Para as demais combinações, ainda faltam estudos clínicos diretos e robustos. Até o momento, a escolha entre esses produtos depende mais do racional biológico, grau de processamento, disponibilidade, custo, aspectos regulatórios e experiência do profissional do que de uma evidência clara de superioridade de um sobre o outro.

Qual derivado de gordura usar?

Atualmente, existem quatro principais derivados de gordura utilizados na medicina regenerativa: microfat, nanofat, SVF e ADMSC. 

O microfat preserva maior parte da estrutura original do tecido adiposo e costuma ser utilizado quando se deseja maior efeito biológico associado a certa capacidade de preenchimento tecidual. 

O nanofat possui partículas muito menores e praticamente não apresenta efeito volumizador, sendo mais utilizado pelo seu potencial de modular inflamação e estimular comunicação entre as células. 

Já a SVF e as ADMSCs concentram maior quantidade de células e moléculas bioativas, despertando interesse principalmente em aplicações regenerativas mais avançadas. Em geral, quanto maior o processamento da gordura, menor tende a ser seu efeito estrutural e maior o foco em sinalização biológica e modulação inflamatória.

Benefícios reais da gordura na Artrose:

Redução da dor e melhora da função: Estudos clínicos e revisões sistemáticas mostram redução significativa da dor em pacientes com artrose de joelho. A melhora começa entre 4 a 8 semanas após a injeção. A duração do efeito varia de 6 meses a 2 anos, dependendo da gravidade da artrose e do tipo de preparo.

Efeito anti-inflamatório comprovado: As células e os fatores de crescimento da gordura diminuem os níveis de citocinas inflamatórias, como TNF alfa e interleucina 1 beta, dentro da articulação. Menos inflamação resulta em menos dor e melhor qualidade de movimento.

Não regenera cartilagem: Nenhuma injeção de gordura, é capaz de regenerar uma cartilagem grau IV (osso exposto) para o estado normal. O máximo que ocorre é a formação de fibrocartilagem, um tecido mais resistente que o osso nu, mas inferior à cartilagem original. A melhora clínica, porém, é real e significativa para a maioria dos pacientes.

Como é o procedimento: Da lipo ao filtro e às agulhas

Escolha do local doador: abdome, virilha, ou outro

O médico avalia onde o paciente tem gordura acessível. O abdome é o local mais comum. A região da virilha (prega inguinal) também é usada, pois tem boa qualidade de células tronco e recuperação mais fácil. Na lateral interna do joelho também é possível, como na região do culote, entre outros locais.

Centrifugação, lavagem e filtragem:

Para MFAT, a gordura aspirada é lavada com soro fisiológico e depois passada por um sistema de filtros que a fragmenta. Não se usa centrífuga. Para nanofat, após a MFAT, o material é emulsificado passando repetidas vezes por um filtro fino (0,5 mm) até virar líquido. Para SVF, a gordura é digerida (ou não) com colagenase, centrifugada e separada.Para ADMSC, as células precisam ser expandidas em cultura por algumas semanas, o que é raro no Brasil para uso clínico direto. Após o processamento, a gordura ou o líquido é aspirado em seringas e injetado dentro da articulação. A injeção é guiada por ultrassom e feita sob anestesia local.

Riscos, efeitos colaterais e limitações

Os riscos mais comuns do procedimento incluem dor e inchaço no local da lipoaspiração (abdome ou virilha), que melhoram em poucos dias. Pode ocorrer inchaço na articulação injetada, com duração de 2 a 7 dias. Infecção ocorre em menos de 0,01% dos casos. Hemorragia e reação alérgica são muito raras, pois o material é do próprio paciente. Alguns pacientes sentem piora da dor nas primeiras 48 horas devido ao aumento de pressão intra-articular. O maior risco é financeiro e psicológico, caso o paciente espere um resultado milagroso. Expectativas realistas são necessárias conforme a gravidade da artrose.

Quem pode e quem não pode fazer esse tratamento

Podem fazer o tratamento pacientes com artrose de joelho, quadril, ombro ou tornozelo em estágios leve a moderado (graus I a III da classificação de Kellgren Lawrence). O tratamento também é opção para quem não respondeu a fisioterapia, analgésicos ou ácido hialurônico.

Não podem fazer o tratamento gestantes, lactantes, pessoas com infecção ativa na articulação, doenças oncológicas em atividade, coagulopatias não controladas, uso de anticoagulantes sem ajuste médico. Pacientes com artrose grau com deformidade grave não são bons candidatos, embora não seja proibitivo; nesse caso, a prótese articular é a melhor solução.

O tratamento da artrose com gordura microfragmentada (MFAT), nanofat, SVF ou ADMSC é seguro e pode reduzir a dor e melhorar a função articular. O material é do próprio paciente, o que elimina o risco de rejeição. Os efeitos adversos são raros. 

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O Dr. Carlos Vinícius é ortopedista com foco em medicina regenerativa e realiza uma avaliação completa para entender o grau da lesão, o perfil do paciente e definir o melhor tratamento, cirúrgico ou não, com tecnologias como reabilitação personalizada, terapia biológica e protocolos avançados de recuperação.

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Referência: Hohmann E, et al. Microfragmented Adipose Tissue Has No Advantage Over Platelet-Rich Plasma and Bone Marrow Aspirate Injections for Symptomatic Knee Osteoarthritis: A Systematic Review and Meta-analysis. Am J Sports Med. 2025 Mar;53(4):988-998.

Link: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39751667/

Referência: Barfod KW, et al. Treatment of knee osteoarthritis with a single injection of autologous micro-fragmented adipose tissue is not superior to a placebo saline injection: a blinded randomised controlled trial with 2-year follow-up. Br J Sports Med. 2025 Aug 26;59(17):1219-1227.

Link: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40101939/

Referência: Jeyaraman N, et al. Current status of nanofat in the management of knee osteoarthritis: A systematic review. World J Orthop. 2025 Jan 18;16(1):99690.

Link: https://www.wjgnet.com/2218-5836/full/v16/i1/99690.htm

Dr. Carlos Vinicius Ortopedista SP

Sobre o Dr. Carlos Vinícius

O Dr. Carlos Vinícius é referência no tratamento por ondas de choque em São Paulo. Formado há mais de 10 anos pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), se especializou em cirurgia do joelho pela Universidade de São Paulo (USP) e finalizou seu doutorado em Ciências da Cirurgia também pela UNICAMP.

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